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Via Paolo Ondarza – Vatican News – texto na íntegra

Nos Evangelhos Canônicos ele não profere uma única palavra: José é o homem a quem o Senhor revela seus planos durante seu sono. Os Livros Apócrifos lhe atribuem frases curtas e lacônicas, que o descrevem como o guardião silencioso da Sagrada Família.

Inscrição de Severa, 330 ca. d.C. Museu Pio Cristão, Museus do Vaticano

Inscrição de Severa, 330 ca. d.C. Museu Pio Cristão, Museus do Vaticano

O silêncio na arte dos primeiros séculos

Sandro Barbagallo, curador do Departamento de Coleções Históricas dos Museus do Vaticano e autor do livro “São José na Arte. Iconologia e iconografia do Guardião silencioso do Redentor“, publicado pela editora Musei Vaticani explica: “Durante os primeiros quatro séculos de cristianismo São José não é mencionado na iconografia”.  Os que, observando a laje sepulcral de 330 d.C., das Catacumbas de Priscilla, conhecida como a Inscrição de Severa e mantida no Museu Pio Cristão no Vaticano, identificam o carpinteiro na figura representada atrás de Maria e Jesus, dentro da cena da Adoração dos Magos, estão tropeçando em um erro interpretativo. O personagem que aponta para a estrela é na verdade o profeta Balaão, não José.

A Anunciação, detalhe com São José, 432-440 ca. Basílica de Santa Maria Maior, Roma

A Anunciação, detalhe com São José, 432-440 ca. Basílica de Santa Maria Maior, Roma

Os mosaicos de Santa Maria Maior

Para encontrar a primeira representação do esposo de Maria, temos que esperar pelo Concílio de Éfeso, que no século V sancionou o dogma do nascimento virginal de Nossa Senhora, e ir à Basílica Liberiana de Santa Maria Maior, em Roma. “Aproximadamente em 440”, continua Barbagallo, “encontramos José em várias cenas dos mosaicos que decoram o arco triunfal: é apresentado como um belo homem de quarenta anos com cabelos fartos e encaracolados, vestido com o clássico traje romano”. Segurando na mão o bastão que se tornaria seu sinal distintivo. A referência é a narração extraída dos Livros Apócrifos que conta como surgiu a escolha do marido de Maria.

Giotto , Núpcias da Virgem Maria, 1303-1305 ca. Capela Scrovegni, Pádua

Giotto , Núpcias da Virgem Maria, 1303-1305 ca. Capela Scrovegni, Pádua

O bastão florido e o lírio

“Desde sua infância, a Virgem viveu dentro do Templo de Jerusalém. Quando chegou a idade de casamento, o sumo sacerdote foi chamado para expressar sua opinião sobre a escolha do futuro marido, e ele remeteu a decisão à vontade de Deus. Todos os candidatos foram convidados a entregar um bastão, cada um dos quais foi colocado dentro da Sancta Sanctorum. Durante uma noite de oração, apenas um destes floresceu: era o de José”. O bastão não representa, portanto, o símbolo do poder, do patriarcado ou do pastor. As flores de lírio que florescem em sua superfície, são emblemáticas da escolha feita pelo Espírito Santo por um homem puro.

Jovem ou idoso?

“No início do século XIV Giotto na Capela Scrovegni retratou o duplo episódio da entrega dos bastões e a floração do que foi entregue por José”. Nos afrescos de Pádua a barba é branca, um homem mais velho. Mas o pai putativo de Jesus era jovem ou idoso? Se em Santa Maria Maior ele é retratado como jovem, mais tarde, nos tempos modernos, ele seria retratado velho e cansado. Este é o caso, por exemplo, das obras de grandes artistas como Guido Reni. A escolha da idade está ligada à sensibilidade individual do pintor.

Inspiração de estátuas clássicas. O São José de Guido Reni comparado com o Sileno segurando a criança Dionísio, uma cópia romana do século II a.C. de um original de Lísipo

Inspiração de estátuas clássicas. O São José de Guido Reni comparado com o Sileno segurando a criança Dionísio, uma cópia romana do século II a.C. de um original de Lísipo

São Bernardino de Sena – recorda Sandro Barbagallo – advertia os artistas que retratavam José como um homem velho. Considerava-os tolos porque se o homem fosse muito idoso, não teria dificuldade em viver em castidade seu casamento com a jovem Maria. Pelo contrário, sua santidade é enfatizada pela representação de sua juventude, na plenitude de sua maturidade viril”.

Entre os artistas que deram a José o rosto de um homem de meia-idade, destaca-se Rafael, que na “Núpcias da Virgem” que se encontra na Pinacoteca de Brera “o apresenta como um homem de cinquenta anos, enfatizando assim o aspecto da pureza”.

Rafael Sanzio, A núpcias da Virgem, 1504, Pinacoteca de Brera, Milão

Rafael Sanzio, A núpcias da Virgem, 1504, Pinacoteca de Brera, Milão

Secundário, mas essencial

José é uma figura secundária comparada ao “fiat” de Maria, mas ele é essencial para custodiar e proteger primeiro sua esposa, um tabernáculo vivo, e depois o Menino, o Verbo Encarnado e a Sagrada Família. “Durante o parto – observa Barbagallo – José não está presente, afasta-se para buscar a ajuda de uma parteira. Mas reaparece durante a adoração dos Magos e dos pastores. Imediatamente depois, o anjo o advertiu em um sonho para fugir para o Egito e foi ele quem conduziu Maria e seu Filho para a segurança, trazendo-os depois de volta para Nazaré. Ele é o pai putativo que permitiu a Jesus crescer em saúde e sabedoria até ele aparecer na cena pública”.

A bênção e o trânsito

Pouco ou nada se sabe sobre a morte deste homem santo, no entanto, muitas vezes a arte tem representado o seu trânsito com base na narração apócrifa. “É um momento importante porque se passa na presença de Maria e de Jesus o qual, antes de morrer, promete-lhe o Paraíso. Graças à iconologia da morte de José, desenvolveu-se a tradição devocional da chamada “boa morte”. José, de fato, é o santo padroeiro dos moribundos porque é a primeira pessoa a morrer com a bênção do Filho de Deus”.

José e os Papas

Sisto IV em 1479 incluiu a festa no Breviário e no Missal Romano. Pio IX o proclamou Patrono da Igreja Universal em 8 de dezembro de 1870. O mesmo Pontífice quis celebrar José nos afrescos da Sala Imaculada no Vaticano confiados ao pintor Francesco Podesti. Desde então, os sucessores de Pedro prestaram várias vezes homenagem ao Esposo da Virgem: de Leão XIII a Pio X, de Bento XV a Pio XI e Pio XII.

Franciszka Bergmana, São José, detalhe do anel do pescador, 1899 Santuário de São José, Wadowice, Polônia

Franciszka Bergmana, São José, detalhe do anel do pescador, 1899 Santuário de São José, Wadowice, Polônia

Os dois anéis papais não destruídos

João XXIII quis dedicar-lhe um altar no transepto sul da Basílica de São Pedro decorado pelo pintor Achille Funi e doou seu anel papal ao santuário polonês de Kalisz, onde é venerada uma pintura “milagrosa” de São José. Na Polônia é conservado outro anel papal oferecido ao Esposo da Virgem Maria. Foi doado por João Paulo II à Igreja de Wadowice, onde ele passou sua infância e que é dedicada ao putativo pai de Jesus. O “anel do pescador” foi colocado entre os dedos de São José pintado em 1899 por Franciszka Bergmana na igreja carmelita da terra natal de São João Paulo II.

Francisco e José

Uma referência a José é encontrada na flor presente no brasão do Papa Francisco, que iniciou seu ministério precisamente no dia 19 de março de 2013 e dedicou este ano para celebrar a memória do pai putativo de Jesus. “A devoção do Papa – conclui Barbagallo – é representada pela figura do São José adormecido: no seu quarto, Francisco tem uma estatueta do santo adormecido, sob a qual ele coloca suas orações por escrito”. “Quando tenho um problema ou dificuldade”, disse o Santo Padre, “escrevo-o em um pedaço de papel e o coloco debaixo de São José, para que ele sonhe com ele”.

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